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31 de janeiro de 2014

Quinto experimento: o conceito de Priming

Artigo originalmente postado em Gestor FP.


O quarto experimento mostrou que o efeito do desconforto, em níveis moderados, é mais do que compensado pelo autocontrole. Em níveis extremos, por outro lado, esse mesmo efeito enfraquece o autocontrole (você pode acessar o post clicando aqui).


Dar elevada importância a alternativas que possam fazer com que nos desviemos de nossos objetivos de longo prazo é um grande obstáculo que, vez ou outra, nos deparamos. E é sobre isso que trata o quinto e último experimento.

Digamos que um estudante precisa se preparar para uma prova importante. Ele quer focar em seus estudos, mas seus pensamentos o levam à situações do quão prazeroso seria estar com seus amigos – isso, de alguma forma, pode se tornar mais importante e diminuir sua motivação para estudar, concorda? Porém, o fator social que concorre com a tarefa de estudar para o teste pode se tornar um interessante aliado fazendo com que o estudante mantenha um elevado nível de motivação para se dedicar aos estudos – tendo como provável consequência uma melhor preparação. Isso só é possível se, antes do evento, o valor da preparação para a prova for reforçado já que, depois de passado o teste, estudar não seria mais uma meta importante.

Antes de continuar, quero explicar um conceito em psicologia que, na literatura americana, se chama “priming”, pois no restante do texto vou usar essa palavra para não ficar explicando um conceito grande e acabar por tornar o texto repetitivo. Priming é a ideia de certas coisas que quando somos expostos (objeto, palavras, ideias, evento, experiência, etc.) ativam certos conceitos que induzem a determinado comportamento. Por exemplo: uma pessoa que acaba de comprar um carro novo pode começar a notar com mais frequência outras pessoas dirigindo a mesma marca e modelo do carro que comprou (já aconteceu isso com você?). Esta pessoa, portanto, foi “preparada” para reconhecer mais facilmente um carro como o dela por causa da experiência que tem ao dirigir e possuir aquele veículo específico. Outro exemplo: já percebeu que quando estamos envolvidos com alguma mulher que esteja grávida (amiga, irmã, prima, esposa, etc.) tendemos a perceber uma grande quantidade de mulheres grávidas no dia-a-dia? Parece que todas as mulheres resolveram engravidar na mesma época, não é?! Pois bem, é o “efeito priming” agindo na sua mente de novo. Explicado sucintamente o conceito, retornemos à quinta experiência.

Foi realizado um experimento com graduandos em enfermagem para testar essa premissa. Eles teriam de fazer uma prova sobre a disciplina de introdução à psicologia. Todo conteúdo da disciplina foi disponibilizado 3 semanas antes dessa prova: todos os participantes tiveram as mesmas condições de prazo para estudar. Algumas motivações sociais foram colocadas em forma de perguntas abertas relacionadas às suas vidas sociais, provocando assim o efeito priming com relação aos assuntos sociais. Essas perguntas foram feitas tanto 1 semana antes do teste quanto 1 semana depois do teste. O experimento teve, então, quatro variáveis: Priming Social (sim v.s. não) X Tempo (antes da prova v.s. depois da prova).

Os participantes receberam um caderno que continha as instruções e um questionário. A primeira parte do caderno foi desenvolvida para a situação de priming social. Foi pedido para que os participantes sob a condição de priming social se imaginassem em uma agradável situação social e, daí, respondessem a três perguntas abertas sobre sua vida social:

a. Quão importante é para você ser sociável? Explique o porquê.
b. Tente lembrar de uma situação em que você agiu de forma sociável. Descreva o que você fez e o que aconteceu.
c. Descreva o que você pode fazer para ser sociável e o que está envolvido ao se comportar de maneira sociável.

(Percebem que as ideias sob comportamento social são exaltadas nessa condição com essas perguntas? Essa é a ideia do efeito priming em ação!)

Os participantes que não estavam sob a condição de priming não responderam a essas perguntas. Todos os participantes responderam a segunda parte do questionário que procurou avaliar a importância de se estudar para a prova numa escala de 1 (não tão importante) a 11 (muito importante), com as seguintes categorias:

  • Importância de conseguir boas notas;
  • Importância de estudar para as provas;
  • Importância de dedicar esforços para estudar para as provas;
  • Importância de estudar para as provas no tempo livre;
  • Importância de ser um bom estudante;
  • Importância de superar a falta de interesse para estudar.


Daí os resultados:



Antes da prova os participantes enxergaram de forma mais favorável o ato de estudar quando motivos sociais foram colocados em evidência do que quando não foram. Depois da prova, no entanto, o valor pessoal para estudar foi baixo em ambas condições, já que a meta não era mais importante.

Os resultados desse experimento sugerem que é necessário levarmos em conta os processos de autocontrole que predizem as consequências motivacionais e comportamentais de um motivo priming. Quando um motivo priming ameaça o alcance de um objetivo de longo prazo (no exemplo inicial desse artigo seria “estar com os amigos é mais importante/prazeroso que estudar”), podemos acessar o controle contra ativo bloqueando esses impulsos. Nesse experimento, o fator social ameaçou a habilidade dos estudantes estudarem para a prova. Porém, em resposta à essa ameaça, os participantes reforçaram a importância de se estudar e, ao invés de enfraquecer tal motivação, o priming social (a ativação de conceitos sociais importantes) fortaleceu esse aspecto prevenindo, inclusive, que o desempenho dos participantes fosse prejudicado no teste.

Depois da prova, contudo, estudar não era mais uma meta importante que necessitava ser protegida contra desejos concorrentes e o priming social não ativou o reforço da importância de se estudar.

Uma ideia muito interessante que podemos associar às nossas vidas financeiras está relacionada ao ato de investir. Pensemos no seguinte caso em que a pessoa trabalha, recebe seu salário e, apesar disso, “não consegue guardar ou investir dinheiro algum”. A primeira coisa que deve ser feita (se já não foi feita) é realizar um diagnóstico de sua situação financeira. A partir disso, estabelecer os objetivos que se quer alcançar, especialmente aqueles que exigem investimentos. Daí definir o orçamento a ser seguido, ajustando as despesas de acordo com os objetivos e condições de vida. E, por fim, realizar a poupança e os investimentos. Esse é um dos caminhos, correto?

Porém, mesmo fazendo isso, tem pessoas que não conseguem guardar dinheiro. Podemos usar o conceito de priming a nosso favor. De que maneira? Simples: se, por exemplo, você sabe que seu pagamento vem todo dia 10, você pode se programar para ver de novo seus sonhos, seus objetivos, ver como os investimentos realizados estão progredindo, estudar alguns dias antes do pagamento sobre novos investimentos ou sobre o desempenho do seu atual investimento, ou seja: se envolver com seus objetivos para fazer com que sua disposição a investir aumente e seus esforços de poupança se intensifiquem, diminuindo a “dor” de realizar os investimentos para alcançar seus objetivos enquanto tem um “desejo concorrente”, uma oportunidade de consumo te tentando.

*

Tenho consciência de que não é fácil trazer essas ideias para nosso dia a dia, mas é bom que tenhamos consciência de como nossas mentes funcionam, provocando nossos comportamentos (muitos deles inconscientes). Faz parte do desafio, não é!?

Espero que tenham gostado dessa série de experimentos sobre o autocontrole. Uma boa semana e bons estudos!

Até!

17 de janeiro de 2014

Quarto experimento: os esforços de autocontrole

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

O terceiro experimento mostrou que as pessoas tendem a se autocontrolar quando são lembradas do porquê de terem que se autocontrolarem (você pode acessar o post clicando aqui).

Já o quarto experimento tentou avaliar se os esforços de autocontrole têm uma função não monotônica. Uma função monotônica, em matemática, é uma função que apresenta direção para cima ou para baixo e não inverte seu curso ao longo do tempo. No caso desse experimento a ideia é exatamente a contrária: a função NÃO monotônica não tem apenas um sentido em relação aos custos de curto prazo de uma atividade e, além do mais, esse teste procurou examinar se ao eliciar a ideia do autocontrole poderíamos diminuir a percepção desses custos de curto prazo no comportamento.

Os três primeiros experimentos mostraram que se a antecipação de algum desconforto em relação à uma atividade aumenta, as pessoas tendem a intensificar seu autocontrole – mas até certo ponto. Se a dificuldade ou desconforto se tornam elevados demais tais esforços podem cessar, fazendo com que os objetivos de longo prazo sejam prejudicados.

Para analisar essas premissas, no quarto experimento realizou-se um teste da função cognitiva à noite. Os participantes foram instruídos que o teste seria totalmente realizado por telefone por duas noites seguidas. Para variar o nível de desconforto, eles teriam de fazer uma ligação em um dos três horários distribuídos entre os grupos-teste: às 21:30, horário considerado conveniente; às 00:30, horário considerado pouco conveniente; ou às 3:30 (sim, da madrugada!), horário considerado muito inconveniente. Foram entregues aos participantes envelopes lacrados que continham duas atividades que deveriam ser realizadas no horário determinado após a ligação e a devida identificação do participante (tais atividades eram 1] desenhar uma árvore detalhadamente e 2] escrever de 1 a 5 associações de ideias com 15 palavras contidas no envelope).

Duas formas de autocontrole foram testadas: uma, similar ao experimento 3, reforçando a importância do teste (valor subjetivo); outra relacionando um significado emocional para se desempenhar o teste.

Seguem os resultados:


Basicamente os resultados mostraram que se os participantes decidem realizar um teste que seja útil mesmo que temporariamente desconfortável, eles criam meios para que se compense tal desconforto. Fazer um teste à meia noite é muito menos conveniente que fazer o mesmo teste mais cedo. Porém, isso não diminuiu o interesse pelo teste; pelo contrário: os participantes agregaram maior importância e valor emocional do que se o realizasse mais cedo. Contudo, vale atentar para os resultados do horário mais inconveniente (às 3:30): tanto a performance como a ideia de importância caíram drasticamente.



Vamos pensar em um exemplo que se relacione às finanças pessoais. Uma pessoa recebe seu salário líquido no valor de R$ 4.000,00, tendo um custo de vida médio de R$ 2.500,00 (esse custo incluem despesas com habitação, saúde, higiene e limpeza, educação, telecomunicação, alimentação, vestuário). Essa pessoa reserva 10% de seu salário para poupança, ou seja, R$ 400,00. Habitualmente ela usa os recursos que sobram e, depois de realizado um diagnóstico financeiro, ela percebeu que tem gastado R$ 1.100,00 com lazer, consumindo assim todo seu salário – bastante dinheiro. Essa pessoa decide definir um objetivo: decide guardar a soma de R$ 15.000,00 para trocar de carro daqui a 12 meses. A troca é importante por alguns motivos, dentre eles: como essa pessoa trabalha viajando, atendendo clientes, é interessante ter um carro melhor que proporcione mais conforto e segurança em suas viagens; além do mais, é uma pessoa que gosta de dirigir belos e bons carros: design e certa sofisticação são fatores que o atraem.

Observe que aqui existem paradigmas financeiros a serem rompidos, pois essa pessoa, para atingir seu objetivo de poupança terá de destinar mais recursos às economias que ao lazer. Pensando no experimento apresentado, qual seria uma solução agressiva demais? E uma solução mais moderada? A solução muito agressiva seria, por exemplo, poupar os R$ 400,00 mais os R$ 1.100,00, tendo apenas o foco de trocar de carro: ou seja, essa pessoa teria uma demanda emocional deprimida que, a qualquer momento, poderia fazer com que ela consumisse a reserva para seu objetivo; poderia fazer com que ela se endividasse por cometer alguma loucura relacionado ao “eu mereço” (viagens não planejadas, compras exageradas e fora do momento, etc); ou mesmo realizar a poupança para trocar o carro, mas, ao fazer todo esse esforço, ela realizaria seu desejo com uma sensação muito grande de sacrifício. A solução moderada, por outro lado, seria ela gastar menos com lazer (fazendo inclusive um orçamento detalhado para essa categoria de despesas) e reservar mais recursos para a troca do veículo – ou seja: ao invés de gastar R$ 1.100,00 com lazer ou usar todo esse dinheiro só para poupança, reservaria R$ 850,00 para a poupança (mais os R$ 400,00) e usaria R$ 250,00 para lazer. Lógico que ainda parece bem drástico, porém devemos lembrar que objetivos e prazos podem ser ajustados.

O propósito desse exemplo é mostrar que podem ser estipulados meios-termos para que você alcance seu objetivo, para que possa se estimular a ter autocontrole e ainda ter a fantástica sensação de realização plena. Dois pontos importantes a serem ressaltados e previamente identificados são: a importância que você confere ao seu objetivo (valor subjetivo) e o significado emocional para alcançar aquilo que se almeja.

Em suma: altos níveis de desconforto intensificam o nosso autocontrole, desde que exista sentido. Porém, se determinada atividade for desconfortável demais, tendendo a ser insuportável, o autocontrole não é acessado e, portanto, não é usado.

Em níveis moderados, o efeito do desconforto é mais do que compensado pelo autocontrole. Em níveis extremos, esse mesmo efeito enfraquece o autocontrole.

No próximo post trataremos do último experimento.

Até!

18 de novembro de 2013

Terceiro experimento: reforçando a importância

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

Estamos quase no final dessa jornada que estuda um pouco sobre o autocontrole. Faltam mais três experimentos (você confere o terceiro logo abaixo) para fechar a pesquisa de Trope e Fishback. Vamos lá!

De acordo com os estudos de Trope e Fishback, os dois testes anteriores (primeiro experimento e segundo experimento) investigaram as táticas que as pessoas usam para avaliar como se comprometem com uma atividade que tem benefícios no longo prazo, mas algum custo no curto prazo.

Como vimos, por um lado atividades desagradáveis diminuem a disposição para que sejam realizadas, sendo que, ao mesmo tempo, podem ativar o controle contra ativo que, mesmo as atividades sendo desagradáveis, aumenta-se a disposição para a sua realização. O terceiro estudo examinou a forma pelo qual os impactos que o reforço da importância da realização de uma atividade desagradável trariam aos participantes do experimento. As pessoas podem fazer isso pensando em como uma determinada ação poderá trazer resultados positivos através do enaltecimento da importância, do interesse, das vantagens ao desempenhar tal atividade antes de se comprometer com ela ou mesmo decidir por realiza-la.

Os procedimentos para esse experimento foram iguais aos do primeiro teste (você pode acessá-lo aqui), exceto pela definição de uma medida para o autocontrole e para o comportamento: abstinência de consumo de açúcar por 6 horas para um grupo de participantes e abstinência de 3 dias para o outro grupo de participantes. A principal diferença é que, após explicado o procedimento aos participantes e eles terem registrado a importância da realização de tal procedimento para sua saúde, introduziu-se uma simples pergunta em que o teste tinha a intenção de extrair informações comportamentais: “Você pretende realizar o teste?”. Depois disso os participantes eram dispensados.

Os resultados coletados nesse experimento reforçaram o que já se previa: os participantes avaliaram o teste de forma mais positiva quando ele durava mais tempo (no caso, o teste de 3 dias). Além disso, por haver o reforço da importância da realização do teste, observou-se que as pessoas tendem a ativar o autocontrole quando são lembradas desse aspecto, mostrando que elas estavam mais dispostas a tolerar o desconforto por mais tempo, se necessário (já que o teste era importante).

Como podemos trazer essa informação para nosso mundo financeiro pessoal? Uma ideia é manter aquilo que queremos controlar ou alcançar em nosso campo de visão ou mesmo um contato regular com a ideia.

Exemplifico. Digamos que eu tenha a intenção de comprar um carro ao final de 12 meses e que ele custe R$ 20.000,00. O meu desejo é compra-lo à vista tanto para evitar desperdício de dinheiro pagando juros quanto, até mesmo, conseguir vantagens diante de uma compra tão vultosa. Meu salário é de R$ 4.000,00 reais e, depois de fazer um diagnóstico e analisar minha situação, percebo que consigo viver muito bem com ¾ desse valor, apesar de que tenho o costume de consumi-lo quase que em sua totalidade. Faço as contas e percebo que para alcançar meu objetivo no prazo determinado terei de poupar R$ 1.500,00 mensais por, praticamente, 14 meses (aqui estou desconsiderando efeitos inflacionários ou da possibilidade de aplicação do dinheiro para gerar juros a favor). Nesse momento já dá para se perceber que terei de fazer um esforço um pouquinho maior, enxugando algumas despesas para que eu alcance meu objetivo (lógico que isso depende do padrão e estrutura de custos de vida de cada um).

Ok: fazer as contas, identificar onde cortar despesas para chegar ao meu objetivo de poupança, realizar o depósito mensal. Tudo isso é muito lindo, especialmente no princípio do processo. Mas como eu me mantenho no rumo, até meu objetivo ser alcançado? Existem diversas formas e uma delas (alinhada ao que o terceiro experimento apresentou) é, por exemplo, “namorar” o carro desejado – vez ou outra dar uma olhada no veículo em uma concessionária, ou mesmo na internet, sempre reforçando a importância de compra-lo com o condicional de que tem que ser à vista (afinal, esse é o objetivo).

Geralmente, eu trabalho bastante focado: uma coisa de cada vez (nosso cérebro não consegue executar duas tarefas ao mesmo tempo, o que ele pode fazer é alternar a atenção). Então, quando eu desejo alguma coisa (concluir um projeto de trabalho, comprar algum bem, comprar uma viagem, etc) eu deixo isso na minha frente, o tempo todo no lugar onde costumo passar a maior parte do tempo. Quando bate aquela sensação de desânimo, olho para a foto, para a colagem (ou qualquer coisa que tenha o efeito de chamar minha atenção para meu objetivo) e lembro do quão seria importante ter ou alcançar aquilo que eu determinei. Ou seja: constantemente eu reforço a importância de alcançar a minha meta, seja qual for – diante disso consigo manter os meus esforços para chegar lá.

No próximo post falaremos sobre o quarto experimento que procurou avaliar se os esforços de autocontrole têm uma função não monotônica (nome esquisito, né?! Mas lá eu explico)


Até!

4 de novembro de 2013

Segundo experimento: o fator recompensa

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

O primeiro estudo avaliou a disposição dos participantes a sofrerem uma penalidade caso falhassem na abstinência para a realização do exame médico; o segundo estudo avaliou a disposição dos participantes em cumprir o teste recebendo uma bonificação, um prêmio, ao invés de uma multa. Esse experimento teve como objetivo verificar se o desconforto temporário de uma atividade provocaria esforços de autocontrole quando a falha para executar tal atividade ameaçaria a realização de uma importante meta de longo prazo.

Os participantes se ofereceram para um estudo de doenças no coração e, como parte desse estudo, teriam que realizar um teste cardiovascular. Esse teste foi descrito como podendo ter baixo ou alto grau de desconforto físico. Também foi dito aos participantes que, caso cumprissem o teste, receberiam um bônus por ter feito parte do estudo. A grande questão era se os participantes fariam com que a bonificação, o prêmio, se tornasse o motivo para completarem o teste.

Primeiro os participantes responderam um questionário para que pudessem definir a importância de avaliar e melhorar sua condição de saúde. Depois disso, o estudo foi conduzido para definir os participantes em dois grupos de controle: a condição de alto desconforto, em que os participantes foram informados que o teste cardiovascular consistia em uma hora de exercícios físicos pesados e a coleta de várias amostras de hormônios feitas através de uma enfermeira – coleta descrita como “muito dolorosa”; enquanto que na condição de baixo desconforto, o teste consistia de uma hora relaxante (como ler um jornal ou um livro enquanto estivessem deitados numa cama) sendo que a mesma coleta de hormônios seria feita por uma enfermeira, mas, nesse caso, nada foi informado sobre dor aos participantes dessa condição.

Os participantes desse experimento foram alunos da Universidade de Tel Aviv e, após receberem a informação sobre o teste cardiovascular, eles decidiriam se queriam receber seu bônus antes ou depois do teste ser concluído (o bônus, no caso, eram créditos extras em seus cursos). A decisão de receber o prêmio pós-teste fazia com que o bônus se tornasse um fator de contingência para estimular o autocontrole.


Daí os resultados:


Essas descobertas apoiam a teoria do CCT em que as pessoas exercem seu autocontrole ao decidir realizar uma atividade física desagradável SE essa atividade estiver relacionada às suas metas no longo prazo. O experimento demonstra que, sob condições específicas, as ​​pessoas estão dispostas a se submeterem à realização de um teste físico desagradável se tiver como contingente uma bonificação. Os participantes poderiam ganhar o bônus sem fazer o teste cardiovascular. No entanto, quando os resultados do teste tinham a característica subjetiva de ser importante, foi pedido para que a gratificação fosse condicionada à realização do teste (bonificação pós-teste), especialmente quando ele era considerado altamente desagradável. Ao se impor essa contingência, os participantes arriscaram perder o bônus, mas, ao mesmo tempo, também se motivaram a realizar o teste cardiovascular mais pesado.

Vale atentar que isso só foi verdade para os participantes que consideraram a sua saúde como algo importante. Os participantes que não consideraram sua saúde como algo valioso tenderam a escolher a aceitar o bônus antes do teste, especialmente quando o teste esperado poderia ser difícil (alto desconforto). O fato de que apenas os participantes a quem a saúde era importante expressa a preferência de receber o prêmio depois e sustenta a hipótese de que a contingência auto imposta foi usada como um meio para superar a tentação de desistir de um objetivo valioso a longo prazo.

Esse experimento podemos relacionar o risco dos investimentos com a importância da aposentadoria, por exemplo. Vemos, na prática, que as pessoas que dão importância à se planejarem e a cumprirem um planejamento para a aposentadoria e que têm o perfil de investimentos mais arrojados (conservador, nessa analogia, seria baixo desconforto e arrojado/agressivo seria alto desconforto, diante da volatilidade dos investimentos) o que se espera é que se tenha um retorno maior das aplicações, podendo, inclusive, aplicar dinheiro em ativos que necessitem de maturação: algumas ações ou mesmo no mercado imobiliário físico, por exemplo. Na ponta inversa, se o investidor for conservador (mesmo com o quesito importância elevado) ele aceita ter um retorno menor (o bônus) em troca de menor volatilidade.

São questões para se pensar, concordam?

No próximo post falaremos do terceiro experimento que trata do reforço da importância antes de se estabelecer o compromisso com alguma atividade/objetivo.

Até!

21 de outubro de 2013

Que comecem os experimentos sobre o autocontrole!

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

O assunto é longo, técnico, mas muito interessante para sabermos como nosso autocontrole funciona, visto que ele é uma das principais fontes de reclamação da maioria das pessoas: “eu não consigo controlar minhas finanças; passo em um shopping e acabo tendo que sair com alguma coisinha” – dentre várias outras falas que vocês mesmos podem citar. Pois bem, estratégias existem. Meios para se conseguir alcançar seus objetivos também estão aí, disponíveis. Às vezes o que falta é a informação necessária para aplicar tais estratégias. Vamos aos experimentos da Teoria do Controle Contra Ativo para procurarmos compreender como aplicar tais informações em nosso dia-a-dia.


Primeiro experimento: o fator punição

O primeiro experimento investigou como o desconforto associado com um teste de glicose afeta a disposição das pessoas que estão motivadas a pagar uma “multa” por uma possível falha no teste.

Basicamente, o experimento consistia de duas situações: um grupo de participantes teria que se abster do consumo de glicose por um curto período de tempo (6 horas) e outro grupo teria que se abster por um período maior (3 dias). Após a aceitação do teste, os participantes disseram ao examinador o quanto estariam dispostos a pagar caso não mantivessem essa abstinência (penalidade auto imposta). Concomitantemente, o experimento comparou as escolhas de um grupo de participantes que determinaria o próprio nível de penalidade com outro grupo que determinaria a penalidade para outras pessoas.

O resultado, graficamente, foi o seguinte:


Esses resultados forneceram um suporte inicial à teoria do CCT relacionado a um desconforto temporário de um teste com penalidades auto impostas, caso o mesmo não fosse cumprido. É interessante observar que o grupo que determinou a penalidade para outras pessoas admitiu uma multa mais baixa quando a desistência se tratava da situação em que o tempo de abstinência é maior (3 dias), sendo que o grupo que determinou o valor para ser multado (“multa” auto imposta) mostrou um padrão inverso. Aparentemente, esses participantes usaram a penalidade monetária como uma estratégia de autocontrole. Apesar da tentação provocada longa abstinência de açúcar ser forte – porém resistível – os participantes do primeiro grupo se auto impuseram multas maiores caso falhassem.

Observando apenas o lado econômico do experimento, esse deveria ter conduzido os participantes envolvidos para se imporem uma pequena penalidade quando um longo período de abstinência é necessário, porque, em si, um longo período de abstinência faz com que o fracasso e a “multa” se tornem bastante prováveis. A constatação de que as penalidades auto impostas eram positivas ao invés de negativas relacionadas com a duração do período de abstinência sugere que os participantes usaram as penalidades para garantir que a abstinência não os impedissem de alcançar seu objetivo a respeito de seus hábitos alimentares.

Se observarmos pela ótica das finanças pessoais, podemos levantar algumas situações das quais nos deparamos. Pensemos no exemplo de um financiamento: imagine que você deseja comprar um computador. Hoje você tem o seu equipamento, funcionando bem, te atende bem, mas está chegando o momento de fazer upgrade para ter acesso a outros tipos de funcionalidades e inovações que facilitariam sua vida e seu trabalho. Mas toda troca, toda compra, tem um custo. Digamos que esse equipamento custasse à vista R$ 5.000,00 – uma máquina poderosa! Você, como disse, não tem necessidade de ter o equipamento agora. Diante disso, você decide optar por se esforçar e poupar o dinheiro para comprar o computador à vista – nesse caso, o desafio está em resistir à tentação de ter o bem agora para não incorrer em “multas” que seriam os juros de um financiamento.

Extrapolemos um pouco mais. Duas situações: uma você tem reservas financeiras emergenciais e outra situação em que esses recursos não existem. Se você precisar do dinheiro para um imprevisto que justifique o resgate (questões sérias de saúde, por exemplo) você pode repor suas reservas aplicando uma taxa, um “juros”, ao recompor a reserva. Agora lanço uma pergunta: qual seria o tamanho desse “juro”? Provavelmente você seria generoso e cobraria 0,5% a.m. de você mesmo – afinal, o dinheiro vai ser pra você mesmo, certo? Só que vamos contrapor com a segunda situação: você não tem reservas, aconteceu o imprevisto sério e você precisa de dinheiro. Decide procurar ajuda com empréstimos bancários. Provavelmente o banco não será tão generoso com você e cobrará juros maiores (há casos e casos, eu sei. Mas é só para elucidar a diferença de visão desse experimento relacionando às finanças pessoais). Muitos outros exemplos podem ser lembrados e discutidos. Mas, por enquanto paremos por aqui.

No próximo post, falaremos sobre o segundo experimento que, ao invés de punição, trata de recompensa.

Até!

3 de setembro de 2013

A teoria do controle contra ativo

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

No último post sobre autocontrole, discorremos sobre a importância de distinguirmos os conceitos dos efeitos de curto e longo prazos. Para ler o último post, clique aqui.

Neste post falaremos sobre a Teoria do Controle Contra ativo (Counteractive Control Theory ou CCT).

De acordo com a CCT, se intensificarmos a importância dos resultados de curto prazo poderemos aumentar a capacidade de escolher que decisão tomar de acordo com as metas de longo prazo, o que faz com que nos comprometamos com as atividades de curto prazo: ao reforçar a importância de se fazer um exame de sangue pensando na saúde no longo prazo, tanto uma pessoa que espera que o teste seja doloroso (e provavelmente será, pois psicologicamente ela considera o checkup aversivo) quanto outra que espera que o mesmo procedimento seja agradável o farão. Contudo, ao reforçar tal importância antes do teste impede que a pessoa que tem aversão recue de sua decisão.

A Teoria do Controle Contra Ativo (CCT) assume que as pessoas devem assumir os esforços pró-autocontrole de modo que eles sirvam de meios para alcançar as metas de longo prazo. Primeiro, esse esforço depende do valor dos resultados que se deseja a longo prazo. Quando tais objetivos de longo prazo não têm muito valor a motivação para se comprometer com eles é reduzida, fazendo com que os esforços para se controlar também se reduzam. Por isso se torna fundamental criar objetivos desafiadores, mas que também sejam relevantes em sua vida.

Em segundo lugar, o efeito dos resultados de curto prazo sobre o controle contra ativo não é monotônico, ou seja, não tem apenas um sentido: quando os custos de curto prazo de uma atividade são muito baixos as pessoas tendem a se sentir capazes de realizar uma atividade sem exercer autocontrole; quando os custos de curto prazo são extremamente elevados, as pessoas tendem a se sentir incapazes de realizar a atividade, mesmo que elas exerçam os esforços para se autocontrolar. Somente quando os custos de curto prazo de uma atividade são moderados que os esforços de autocontrole podem determinar se a atividade deve ser realizada.

Em terceiro lugar, as pessoas exercem o controle contra ativo ANTES, mas não após a realização de uma atividade. Antes de realizar uma atividade, o controle contra ativo pode ajudar as pessoas a escolherem e realizarem uma atividade. Depois de executar a atividade, o controle contra ativo (tal como reforçar a importância da atividade) só serve para reduzir algum arrependimento. A CCT prevê, portanto, que os resultados de curto prazo de uma atividade deveriam provocar o controle contra ativo antes e não após se comprometer com alguma atividade. Por exemplo, imagine que você está definindo o patrimônio que deve ser construído para que alcance a sua independência financeira e descubra que deve mudar de hábitos e talvez até reduzir seu padrão de vida para chegar lá: só que isso implica em abrir mão de consumo agora – é um processo bastante delicado, certo? Porém, se isso realmente for importante, atingir um patamar em que você pare de precisar de jogar o jogo do dinheiro, um patamar em que se torne dono absoluto do seu tempo, um patamar que você trabalha apenas naquilo que quer e porque gosta, talvez os custos de curto prazo tendam a ser melhor tolerados. Ou seja: o valor de se realizar tais mudanças devem ser enfatizados antes (e até durante) a realização do plano para independência financeira, mas não depois (se é que vai conseguir concretizá-lo).

Existe uma vasta literatura sobre diversas estratégias de autocontrole; Trope e Fishback propuseram 5 experimentos que avaliam o seguinte: (1) o efeito de penalidades monetárias de curto prazo caso o descumprimento das atividades de curto prazo afetem os resultados de longo prazo; (2) o efeito de recompensas contingenciais ou por performance que estejam relacionadas aos objetivos de longo prazo; (3) o efeito de desempenhar determinada atividade apesar do desconforto físico; (4) qual grau de desconforto que ativa a capacidade das pessoas se autocontrolarem; (5) o efeito de se elevar a percepção dos custos de curto prazo da atividade antes dela ser executada e não depois.

Sei que toda essa pesquisa tende a ser um assunto técnico, apesar disso, ela pode nos dar alguns caminhos para desenvolvermos nossas próprias técnicas para ativarmos nosso autocontrole e caminhar em direção aos nossos objetivos de longo prazo.

Por enquanto é só.

Até!

31 de agosto de 2013

O autocontrole e os efeitos de curto e longo prazos

Artigo originalmente escrito em GestorFP.

Uma das maiores dificuldades das pessoas é ter autocontrole. Essa habilidade é fundamental para que consigamos atingir nossos objetivos na vida. Existem vários estudos no campo da psicologia que tratam desse tema, já que, se descobrirmos os mecanismos internos que nos permitam acessar essa habilidade tão cobiçada, poderemos ter maiores possibilidades de sucesso.

Conforme foi dito no artigo anterior (clique aqui para ler), o autocontrole é uma habilidade que pode e deve ser desenvolvida, ainda mais quando o foco de atenção são as finanças pessoais. Dois estudiosos sobre esse assunto, Yaacov Trope (New York University e Tel Aviv University) e Ayelet Fishback (The Academic College e Tel Aviv-Yaffo), mostram através de um estudo realizado (Counteractive Self-Control in Overcoming Temptation) cinco experiências que podem nos estimular a criar meios para desenvolvermos ou eliciarmos o autocontrole.

Geralmente as pessoas sabem o que querem, mas se sentem inseguras se aquilo que querem é realmente o que desejam. Essa incerteza reflete as dificuldades em tornarem seus desejos viáveis através da falta de oportunidades, falta de liberdade de escolha ou falta de habilidades pré-requeridas. O trabalho de Trope e Fishback tomou como base várias outras pesquisas sobre autocontrole e as estratégias/hipóteses que eles criaram procuram determinar (a) como antecipar as tentações que provocam o autocontrole bem como (b) se o autocontrole diminui a influência das tentações no comportamento.

Antes de falarmos sobre essas experiências que eliciaram as estratégias, vamos fazer algumas distinções entre os efeitos percebidos das atividades a curto prazo e a longo prazo. Os efeitos de curto prazo são imediatos, mas não são perenes; por outro lado, os de longo prazo são remotos, mas duradouros. Quando nos deparamos com situações em que os efeitos de curto prazo se defrontam com os de longo prazo, nos encontramos em um grande dilema. Um exame médico pode causar desconforto imediato, mas pode prevenir e promover sua saúde no longo prazo. Porém, as pessoas podem decidir não realizar o check-up caso tenham uma pré-compreensão de que o desconforto percebido é maior do que ele é de fato – em geral quando os efeitos de curto prazo entram, de fato, em conflito com os efeitos de longo prazo, as pessoas tendem a perceber os eventos de curto prazo como ameaças aos seus interesses de longo prazo. Em resposta a essa ameaça, as pessoas podem exercer o autocontrole envolvendo inúmeros processos cognitivos, emocionais e motivacionais a fim de neutralizar os incômodos do presente objetivando alcançar os resultados almejados no futuro.

Descomplicando: a compreensão da importância de realizar reservas para a conquista de seus sonhos ou de realizar a atividade de registro de TODAS as entradas e saídas em suas finanças pessoais (para muitos inicialmente incômoda) pode fazer com que você tenha uma vida financeira compensadora. De acordo com a pesquisa, esse autocontrole pode ser obtido através de autoimposições de penalidades materiais, sociais ou psicológicas. Quando o desconforto é pequeno, pouco ou nenhum autocontrole é exercido; quando o desconforto é grande demais, isso pode fazer com que você não exerça autocontrole, pois vai parecer que é impossível de realizar determinada atividade.

No próximo artigo falaremos sobre a Teoria do Controle Contra Ativo (Counteractive Control Theory ou CCT), uma das bases de compreensão desse estudo.

Até lá!

27 de agosto de 2013

O principal fator para seu sucesso financeiro

Artigo originalmente postado em Gestor FP.

São vários os fatores que podem nos conduzir ao sucesso na vida, seja esse o sucesso financeiro, pessoal, ou o profissional.

Limitando-nos ao aspecto financeiro, poderíamos dizer que os ingredientes para o sucesso incluem: uma boa administração financeira dos próprios recursos, investimento adequado de parte dos rendimentos, habilidade e capacidade para obter renda a partir de diversas fontes, boas ferramentas de apoio e acompanhamento da evolução das finanças pessoais, investimento em educação financeira (cursos, oficinas, livros) e, certamente, muito mais coisas. Porém, gostaria de enaltecer uma habilidade que todos podem desenvolver, aliás, todos devem desenvolver, para alcançar os objetivos que foram estabelecidos, em qualquer área da vida: o autocontrole.

Autocontrole, ou também autodisciplina, significa tomar posse de sua própria mente. Ninguém pode alcançar o sucesso sem se tornar mestre de si mesmo. O autocontrole começa com o domínio de seus pensamentos. Sim, você pode controlá-los, ou pelo menos direcioná-los para onde bem desejar. Se você não controlar seus pensamentos, não poderá controlar as suas ações. A primeira forma de autocontrole, portanto, é pensar primeiro e agir depois. Geralmente as pessoas tendem a fazer o inverso, o que pode gerar consequências delicadas e, às vezes, bem desagradáveis.

Livros foram escritos sobre diversos aspectos de como melhorar as nossas vidas; eventos são realizados para apresentarem ou mesmo nos educarem sobre vários tipos de informação. Mas de nada adianta sermos uma “super esponja”, absorvendo tudo que encontramos pelo caminho, se não fazemos nada com o conteúdo. É preciso transformarmos os conteúdos em algo útil e importante para nós mesmos e para os outros.

Mas como desenvolver o autocontrole para fazermos aquilo que desejamos? Essa resposta é bastante particular, e, no próximo post, vou trazer informações de uma pesquisa sobre esse assunto.

Até lá!